As escolas matam a criatividade?

As escolas matam a criatividade?

2 jan 2019


Bom dia. Como estão? Tem sido ótimo, não tem? Fiquei maravilhado com a coisa toda. Na verdade, estou indo embora. (Risos) Existem três tópicos abordados ao longo da conferência que são relevantes para o que eu vou falar. O primeiro é a extraordinária evidência da criatividade humana em todas as apresentações que tivemos e em todas as pessoas presentes. Sua variedade e multiplicidade. O segundo é o fato de que não fazemos a menor ideia do que vai acontecer no futuro. Nenhuma ideia do que nos espera.

Eu me interesso por educação. Na verdade, eu descobri que todo mundo se interessa por educação. Vocês não? Eu acho isso muito interessante. Se você estiver numa festa e disser que trabalha com educação… Na verdade, você não vai a muitas festas se trabalha com educação. (Risos) Não é convidado. E curiosamente ninguém te convida de novo. Acho isso estranho. Mas se você estiver, e contar para alguém… Quando perguntam “O que você faz?”, e você responde que trabalha com educação, dá pra ver a pessoa ficar pálida na hora. Elas pensam: “Ai meu Deus! Por que eu? Logo hoje que eu saí de casa.” (Risos) Mas se você perguntar sobre a educação deles, eles te põem contra a parede. Porque é uma dessas coisas arraigadas nas pessoas, estou certo? Como religião, dinheiro e outras coisas. Eu tenho um grande interesse em educação, e acho que todos temos. Nos interessamos tanto por ela em parte porque é da educação o papel de nos conduzir a esse futuro misterioso. Se formos pensar, as crianças entrando na escola esse ano estarão se aposentando em 2065. Ninguém tem noção, apesar de todo conhecimento que vimos nos últimos quatro dias, de como o mundo vai estar em cinco anos. E ainda assim devemos educá-los para esse mundo. A imprevisibilidade, pra mim, é extraordinária.

A terceira coisa é que nós todos concordamos, apesar de tudo, com a capacidade extraordinária que as crianças têm. Sua capacidade de inovação. Sirena ontem a noite foi uma maravilha, não foi? Ver do que ela é capaz. Ela é excepcional, mas não acho, por assim dizer, que seja uma exceção entre todas as crianças. O que vemos ali é uma pessoa de extrema dedicação que achou seu talento. Minha convicção é que todas as crianças têm um talento tremendo. E o desperdiçamos, implacavelmente. Por isso eu quero falar sobre educação e quero falar sobre criatividade. Minha convicção é que a criatividade hoje é tão importante na educação como a alfabetização, e deve ser tratada com a mesma importância.(Aplausos) Obrigado. Era isso, a propósito. Muito obrigado. (Risos) Então… Quinze minutos sobrando. Eu nasci… Não. (Risos)

Ouvi uma história excelente há pouco. Adoro contá-la. É de uma menininha que estava numa aula de desenho. Ela tinha seis anos e estava lá no fundo, desenhando. A professora disse que essa menininha quase nunca prestava atenção na aula, e dessa vez ela prestou. A professora ficou fascinada, foi até ela e perguntou: “O que você está desenhando?” E a menina respondeu: “Estou desenhando Deus.” E a professora disse: “Mas ninguém conhece a aparência de Deus.” E a menina disse: “Vão conhecer num minuto.” (Risos)

Quando meu filho tinha quatro anos na Inglaterra… Na verdade ela tinha quatro anos em qualquer lugar, pra ser sincero. (Risos) Para sermos exatos, onde quer que ele fosse, ele tinha quatro anos na ocasião. Ele estava numa peça de Natal. Se lembram da história? Sério, foi importante. Foi uma grande história. Mel Gibson fez a sequência. Talvez vocês tenham visto: “Natal 2”. Mas o James ganhou o papel de José, o que nos deixou empolgados. A gente considerava ser um dos protagonistas. Lotamos o teatro com representantes usando camisetas: “James Robinson É José!” (Risos) Ele não tinha nenhuma fala, mas vocês conhecem a parte onde chegam os Reis Magos. Eles carregam presentes, e trazem ouro, incenso e mirra. Isso aconteceu de verdade. Estávamos lá sentados e eu acho que eles não seguiram a ordem porque nós conversamos com o garotinho depois e perguntamos: “Tudo certo?” E ele disse: “Claro! Por quê? Estava errado?” Eles trocaram a ordem, só isso. Enfim, os três garotos entraram, crianças de quatro anos com toalhas na cabeça, e colocaram as caixas no chão. O primeiro garoto disse: “Eu trago ouro.” O segundo garoto disse: “Eu trago mirra.” E o terceiro garoto disse: “O Frank mandou isso.” (Risos)

O que essas histórias tem em comum é que as crianças correm riscos. Se elas não sabem, elas chutam. Estou certo? Elas não tem medo de errar. Não estou dizendo que estar errado é o mesmo que ser criativo. O que sabemos é que se você não estiver preparado para errar, você nunca terá uma ideia original. Se não estiver preparado para errar. E quando chegam à fase adulta, a maioria das crianças perdeu essa capacidade. Elas têm pavor de estarem erradas. E as empresas são administradas assim, por sinal. Nós estigmatizamos os erros. E hoje administramos os sistemas educacionais de um jeito em que errar é a pior coisa que pode acontecer. O resultado disso é que estamos educando as pessoas para serem menos criativas. Picasso disse uma vez que todas as crianças nascem artistas. O problema é permanecer artista enquanto crescemos. Eu acredito apaixonadamente que não aumentamos nossa criatividade, a diminuímos. Ou melhor, somos educados a abandoná-la. Mas por quê?

Eu morei em Stratford-on-Avon até cinco anos atrás. Na realidade, mudamos de Stratford para Los Angeles. Vocês podem imaginar a mudança suave que foi. (Risos) Na verdade, nós moramos numa cidade chamada Snitterfield, na periferia de Stratford, que foi onde o pai do Shakespeare nasceu. Vocês tiveram um estalo? Eu tive. Você nunca pensou que Shakespeare teve um pai, pensou? Pensou? Porque você nunca pensou no Shakespeare criança, pensou? Shakespeare com sete anos? Eu nunca tinha pensado. Quero dizer, ele algum dia teve sete anos. E aprendeu inglês na aula de alguém, não aprendeu? Como isso seria irritante? (Risos) “Se esforce mais.” Ser mandado para cama com o pai dizendo “Para cama, agora!”, para William Shakespeare. “Larga esse lápis. E para de falar desse jeito. Ninguém entende nada.” (Risos)

Enfim, nos mudamos de Stratford para Los Angeles, e eu só quero dizer uma coisa sobre essa transição. Meu filho não queria vir. Eu tenho dois filhos. Ele agora tem 21 e minha filha 16. Ele não queria vir para Los Angeles. Ele adorava, mas tinha uma namorada na Inglaterra. Era o amor de sua vida, Sarah. Eles se conheciam por um mês. Vejam bem, eles já tinham celebrado seu quarto aniversário, porque isso é muito tempo aos 16. Em todo caso, ele estava chateado no avião e disse: “Eu nunca mais vou encontrar uma garota como a Sarah.” E nós ficamos bastante contentes com isso, francamente. Porque ela era a principal razão de estarmos deixando o país. (Risos)

Uma coisa chama atenção quando se vem para os EUA e quando se viaja pelo mundo: todo sistema educacional do planeta tem a mesma hierarquia de disciplinas. Todos eles. Não importa aonde vamos. Você pensa que seria diferente, mas não é. No topo estão a matemática e as línguas, depois as humanas e por último as artes. Qualquer lugar do planeta. E praticamente em qualquer sistema existe uma hierarquia dentre as artes. Arte e música normalmente tem uma importância maior nas escolas do que drama e dança. Não existe um sistema educacional no planeta que ensina dança diariamente às crianças da mesma forma que ensina matemática. Por quê? Por que não? Eu acho bastante importante. Eu acho que matemática é importante, mas dança também. As crianças dançam o tempo todo se deixarem. Nós todos dançamos. Nós todos temos corpos, não temos? Eu faltei uma reunião? (Risos) Sério, o que acontece é que à medida que as crianças crescem, nós começamos a educá-las progressivamente da cintura para cima. E depois nos focamos na cabeça. E levemente para um lado.

Se você visitasse nossas escolas, como um ET, e se perguntasse: “Para que serve a educação pública? “Eu acho que a conclusão obrigatória seria, olhando para o resultado, que quem é bem sucedido, quem faz tudo o que deve, quem ganha as estrelinhas, quem são os vencedores, eu acho que a conclusão seria de que o objetivo da educação pública ao redor do mundo é produzir professores universitários. Não é? Eles que saem por cima. E eu costumava ser um, pra constar. Eu gosto de professores universitários, mas nós não devemos colocá-los no topo das realizações humanas. É só uma forma de vida, outra forma de vida. Mas eles são peculiares, e eu digo isso com todo carinho. Existe uma coisa curiosa com os professores, na minha experiência. Não todos, mas tipicamente, eles vivem em suas cabeças. Eles vivem lá em cima e levemente para um lado. Eles saíram do corpo, quase literalmente. Eles vêem o próprio corpo como uma forma de transporte para a cabeça. Não é assim? (Risos) É um jeito de levarem suas cabeças às conferências. Se você quiser evidências concretas de experiências extra-corpóreas, por sinal, é só participar de uma conferência de acadêmicos sênior, e aparecer na discoteca na noite final. (Risos) E lá você vai ver, homens e mulheres maduros, se contorcendo incontrolavelmente, fora do ritmo. Só esperando que o evento acabe e eles possam escrever um artigo a respeito.

Nosso sistema educacional atual se baseia na ideia da habilidade acadêmica. E existe uma razão para isso. O sistema foi concebido, e no mundo todo, não existiam sistemas públicos de educação antes do Séc. XIX. Todos eles foram criados para atender a demanda da industrialização. Então a hierarquia está apoiada em duas ideias. A primeira é que as disciplinas mais úteis para o trabalho estão no topo. Então você era bondosamente afastado na escola quando era criança de certas coisas, coisas que gostava, com a premissa que você nunca iria conseguir um emprego fazendo aquilo. Correto? Não faça música, você não vai ser músico. Não faça arte, você não vai ser artista. Conselho benigno. Hoje, profundamente errado.

O mundo inteiro está envolto numa revolução. A segunda é a aptidão acadêmica, que veio a dominar nossa visão de inteligência, porque as universidades planejaram o sistema à sua própria imagem. Se você for pensar, todo o sistema de educação pública ao redor do mundo é um extensão do processo de ingresso à universidade. A consequência disso é que muitas pessoas altamente talentosas brilhantes e criativas, pensam que não são, porque aquilo que elas eram boas na escola não era valorizado, ou era até estigmatizado. Eu acho que não podemos nos dar ao luxo de ir por esse caminho.

Nos próximos 30 anos, de acordo com a UNESCO, mais gente ao redor do mundo irá se formar através da educação do que desde o princípio da história. Mais gente. E isso é a combinação de tudo que já falamos. A tecnologia e seu efeito modificador no trabalho, e a demografia e a enorme explosão populacional. De repente, diplomas não valem mais nada. Não é verdade? Quando eu estudava, quem tinha um diploma, tinha um emprego. Quem não tinha um emprego, era porque não queria. E eu não queria, francamente. (Risos) Mas agora garotos com diplomas estão voltando para casa para jogar vídeo game porque pedem mestrado para o trabalho que necessitava bacharelado, e doutorado para o trabalho que necessitava mestrado. É um processo de inflação acadêmica. E é um indicativo de que toda a estrutura educacional está mudando na frente do nosso nariz. Precisamos repensar radicalmente nossa visão de inteligência.

Sabemos três coisas sobre inteligência. Um, é variada. Pensamos a respeito do mundo de todas as formas que o vivenciamos. Pensamos visualmente, pensamos auditivamente, pensamos cinestesicamente. Pensamos em termo abstratos, pensamos em movimento. Dois, inteligência é dinâmica. Se formos olhar as interações do cérebro humano, conforme ouvimos ontem em várias apresentações, a inteligência é maravilhosamente interativa. O cérebro não se divide em compartimentos. De fato, criatividade, que eu defino como o processo de ter ideias originais que possuem valor, com bastante frequência se manifesta através da interação de como as diferentes disciplinas vêem as coisas.

O cérebro é intencionalmente… Por sinal, existe um feixe de filamentos nervosos que conecta os dois lados do cérebro chamado corpo caloso. É mais espesso nas mulheres. Completando o que a Helen falou ontem, eu acho que esta é a razão pela qual as mulheres são melhores em multitarefa. Porque vocês são, não são? As pesquisas são abundantes, mas eu sei por experiência própria. Quando minha esposa está cozinhando, o que acontece pouco, ainda bem. (Risos) Mas enfim, ela está lá… Sério, ela é boa em algumas coisas. Mas quando ela está cozinhando, ela está falando no telefone, está falando com as crianças, está pintando o teto, está fazendo cirurgia cardíaca. Quando eu cozinho, a porta está fechada, as crianças saíram, o telefone está fora do gancho, se ela aparece eu me irrito. Eu digo: “Terry, por favor, estou tentando fritar um ovo aqui. Me deixa em paz.” (Risos) Conhecem aquele velho postulado filosófico? Se uma árvore cai na floresta e ninguém ouve, será que aconteceu? Lembram dessa piada velha? Vi uma camiseta excelente esses dias que dizia: “Se um homem fala o que pensa numa floresta, e nenhuma mulher escuta, ele continua errado?” (Risos)

O terceiro ponto sobre a inteligência é que é distinta. Estou escrevendo um livro atualmente chamado “Epifania”, que é baseado numa série de entrevistas que eu fiz sobre como as pessoas descobriram seus talentos. Sou fascinado por como elas chegaram onde estão. Fui motivado por uma conversa que tive com uma mulher maravilhosa que talvez muitas pessoas nunca tenham ouvido falar. Ela se chama Gillian Lynne, já ouviram falar dela? Alguns já. Ela é uma coreógrafa e todo mundo conhece seu trabalho. Ela trabalhou em “Cats”, e “O Fantasma da Ópera”. Ela é maravilhosa. Eu estava no conselho do Royal Ballet, na Inglaterra, como podem ver. Gillian e eu almoçamos um dia e eu perguntei: “Gillian, como você se tornou dançarina?” E ela respondeu que foi interessante, quando ela estava na escola, ela estava desanimada. E a escola, nos anos 30, escreveu para os pais dizendo: “Achamos que a Gillian tem dificuldade de aprendizado.” Ela não conseguia se concentrar, era inquieta. Eu acho que hoje diriam que ela tinha TDAH. Não acham? Mas eram os anos 30, e TDAH não tinha sido inventado ainda. Não era uma doença disponível. (Risos) As pessoas não sabiam que podiam ter aquilo.

Então a mandaram para um especialista. A sala era toda em madeira. Ela estava com sua mãe, e a puseram numa cadeira no canto, e ela sentou sobre as mãos por 20 min enquanto um homem conversava com sua mãe sobre os problemas que a Gillian vinha tendo na escola. E no final… Porque ela estava perturbando as pessoas, as tarefas estavam sempre atrasadas, e assim por diante, um criança de oito anos. No final o médico sentou ao lado da Gillian e disse: “Gillian, eu ouvi todas as coisas que sua mãe me disse, e eu preciso conversar a sós com ela.” Ele disse: “Espere aqui, já voltamos. Não vai demorar.”, e eles deixaram ela sozinha. Mas enquanto eles saiam da sala, ele ligou o rádio que estava sobre a mesa. E quando eles saíram da sala, ele disse para a mãe: “Só a escute e a observe.” E assim que eles deixaram a sala, ela disse, ela estava de pé, se movendo com a música. Eles observaram por alguns minutos e ele se virou para a mãe e disse: “Sra. Lynne, a Gillian não está doente, ela é uma dançarina. Leve-a para uma escola de dança.”

Eu perguntei: “O que aconteceu?” Ela respondeu: “Ela levou. Não consigo descrever como foi maravilhoso. Entramos numa sala cheia de pessoas como eu. Pessoas que não conseguiam ficar paradas. Pessoas que precisavam se mexer para pensar. Precisavam se mexer para pensar. Eles ensinavam ballet, sapateado, jazz, dança moderna, contemporânea. Ela eventualmente fez um teste para a Royal Ballet School, se tornou uma solista e teve uma carreira fantástica na Royal Ballet. Ela eventualmente se formou na Royal Ballet School, fundou sua própria empresa, a Companhia de Dança Gillian Lynne, e conheceu Andrew Lloyd Weber. Ela foi responsável por alguns dos musicais mais bem sucedidos na história, deu alegria para milhões, e é multimilionária. Outra pessoa poderia ter receitado um remédio e dito para ela se acalmar.

Hoje, eu acho… (Aplausos) Eu acho que se resume a isso: Al Gore falou outra noite sobre ecologia, e a revolução desencadeada por Rachel Carson. Eu acredito que nossa única esperança para o futuro é a adoção de uma nova concepção de ecologia humana, uma em que começamos a reconstituir nossa concepção da riqueza da capacidade humana. Nosso sistema educacional explorou nossas mentes como exploramos a terra: em busca de um recurso específico. E para o futuro, isso não serve. Temos que repensar os princípios fundamentais que baseamos a educação de nossas crianças. Existe uma frase maravilhosa de Jonas Salk, que diz: “Se todos os insetos desaparecessem da terra, dentro de 50 anos, toda vida na Terra desapareceria. Se todos os humanos desaparecessem da Terra, dentro de 50 anos todas as formas de vida floresceriam.” Ele está certo.

O que a TED celebra é a dádiva da imaginação humana. Temos que ser cuidadosos e usar essa dádiva com sabedoria, de modo e evitar alguns dos cenários que falamos a respeito. E a única maneira de fazer isso é encarando nossa capacidade criativa pela riqueza que ela representa e nossas crianças pela esperança que elas representam. Nossa tarefa é educá-las em sua totalidade, preparando-as para esse futuro. A propósito, talvez não vejamos esse futuro, mas elas verão. E o nosso trabalho é ajudá-las a tirar proveito dele. Muito obrigado.

Ken Robinson

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